Grupo de Trabalho (GT) Geografia e Educação

 

Breve histórico

O GT Geografia e Educação iniciou suas atividades em fevereiro de 2011, com encontros aperiódicos (ver relatos abaixo). Nestes encontros foram realizadas discussões baseadas em textos que se relacionavam com as "preocupações" dos membros do GT. As principais preocupações que desde então norteiam nossas discussões são em relação a função da escola e da educação formal, as relações da escola e da educação formal com os processos que se desenvolvem fora da escola e as possibilidades de educação não formais.

Realizamos em novembro de 2011, como atividade antecedente ao VII Fala Professor! e a partir dos acúmulos das discussões do GT, o Espaço de Diálogos e Práticas “Educação e Neoliberalismo: o contexto e o Cotidiano do Trabalho Educativo”, centrada, portanto, nos sujeitos que vivenciam o processo educativo (repleto de contradições e conflitos).

Participamos da greve de 112 dias dos trabalhadores em educação de Minas Gerais, entre 08 de junho e 27 de setembro de 2011, o que resultou no texto “Quem luta, educa: o que a greve de 2011 ensinou?”, disponível em < http://agb-belohorizonte.webnode.com.br/news/quem-luta-educa-o-que-a-greve-de-2011-ensinou-/ >.

A organização do XVII Encontro Nacional de Geógrafos em Belo Horizonte suspendeu as atividades do GT. Passado o Encontro, temos voltado a nos reunir. A discussão agora tem sido acerca das relações entre Educação e Ocupações Urbanas, uma vez que a AGB-BH tem um forte envolvimento com estas e uma delas, ocupação Eliana Silva, está elaborando um projeto de educação de jovens e adultos em que há possibilidade de participação do GT Geografia e Educação.

 

Belo Horizonte, 07 de Novembro de 2012

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1ª reunião do GT-Educação AGB - seção local Belo Horizonte - Data: 26/02/2011


 

A prosa que tivemos nesse sábado passado (dia 26/02), do GT Educação da AGB-BH, teve pouca gente (Conde da AGB, Leonardo da AGB, Bruno da AGB e Diogo de Itabira), mas levantou bastante coisa. Combinamos de rodar esse email pra socializar um pouco disso. Não teve um texto de base pra leitura ou um roteiro pra discussão, mas teve um ponto de apoio: a questão da Educação Popular.

O Leo abriu a discussão apresentando entendimentos do que é Educação Popular. Como ela se forma e sua relação que vai além da escola – inclusive de tensão com a dinâmica escolar regular. Deu condições pra gente colocar na panorâmica...

Ao mesmo tempo, estávamos presentes professores que tem atuação escolar. Que reconhecem as limitações do nosso cotidiano por vários motivos:

- sejam aquelas vinculadas ao espaço escolar no sentido estreito e físico, das paredes e tetos desse caixote que é a escola no sentido usual do termo; a idéia de conhecimento espacial, se pá: trabalho de campo, está presente no nosso entendimento desses lugares que somos trabalhadores e educadores? E a sala de aula, é camisa de força e pode ser subvertida? Ainda mais com o específico de mexer com infância, adolescência, o povo da EJA saudoso da educação que foi retirada décadas atrás?

- sejam aqueles da escola como instituição com suas burocracias e hierarquias, tanto as públicas quanto particulares (incluindo aquelas que não vendem vagas, como pré-vestibular comunitário); a prefeitura de BH e a rede estadual foram apontados, mas o Diogo também levantou questões da escola pública de Itabira, de conflitos que convergem e divergem, mas teve que sair mais cedo e precisamos retomar, refletir. A escola que não é pública-estatal-de-cunho-liberal tá numa situação melhor?

- sejam aquelas do campo do conhecimento, de qual conhecimento geográfico se ensina e que relação tem com a realidade de vida dos alunos, e mesmo com a nossa realidade de professores de uma formação metropolitana; de exemplo vem aí uma Copa do Mundo que acelera um conjunto de processos metropolitanos: que apropriações e críticas colocamos na perspectiva?

- destaque pra fragmentação presente na mobilidade espacial dos deslocamentos frenéticos da força de trabalho docente – lembramos das quilometragens diárias, de dar aula em vários bairros em que não nos reconhecemos; será que os alunos também se reconhecem nessa categoria de análise bairro? A comunidade se realiza de que jeito na metrópole? Tem igreja funcionando três turnos no centro que é espaço associativo e formativo-educativo muito mais que outras espacialidades do bairro... a igreja do professor é qual? o buteco? o veículo coletivo ou individual? e a bíblia? é a revista da avon e a bula do tarja preta?

- de maneira que sentimos a necessidade de dar continuidade nessas questões, mas de uma maneira que organize nosso pensamento e nossa prática, pra não ter um momento só de prática e outro só de teorização. Entendemos que o GT de Educação da AGB-BH é uma maneira pra isso, e pra outras que devem aparecer.

Entender coletivamente um pouco do que é a Educação foi uma necessidade muito evidente. Propomos a leitura de dois textos pra tentarmos nos afinar – diferente de estar procurando cartilhas a serem aplicadas! Pedagogia da Autonomia do Paulo Freire e O que é Educação? do Carlos Rodrigues Brandão vão ser o nosso ponto de partida. Avaliamos que são livros menores no tamanho, mas que abrem muita perspectiva. Faremos leituras e traremos questões pro próximo encontro do GT.


 

Relato da reunião, ocorrida em 09 (nove) de Abril de 2011, do Grupo de Trabalho sobre Educação da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local Belo Horizonte

No dia 09 de Abril de 2011 conforme convocatória enviada aos associados e demais interessados, às 14 horas, no Centro Cultural da UFMG, aconteceu a segunda reunião do GT de Educação da AGB-BH. Estiveram presentes 11 participantes, entre professores de educação básica, estudantes de graduação e outros interessados no debate. Foram indicadas para leitura duas obras, que pudessem dar subsídios à discussão, e optou-se pelos livros “O que é Educação”, de Carlos Rodrigues Brandão e “Pedagogia da Autonomia”, de Paulo Freire. A discussão teve início com a leitura do relato da primeira reunião. Em seguida, após uma conversa entre os participantes, optou-se por fazer uma discussão mais ampla, partindo do próprio conceito de Educação. Assim, resolve-se partir do primeiro texto indicado.

Nesta obra, o autor amplia a discussão sobre a educação, iniciando o diálogo da educação a partir das sociedades indígenas, dos processos de troca de conhecimentos e de aprendizagem coletivos entre sujeitos inseridos numa coletividade. Essa definição é importante porque se contrapõe à forma como a educação passa a ser compreendida num dado momento histórico especifico, da sociedade dividida em classes, onde este processo é formalizado e cria-se uma espacialidade “própria” para o processo de aprendizagem, um lugar para este saber, que é a escola. Contudo, sabe-se que este não é o único espaço onde as pessoas aprendem. Portanto, uma coisa é a educação e outra é a escola. A educação passa a ser dever do Estado e valor universal; torna-se uma instituição: a escola. Impõe um saber e um modo de ensinar (e, portanto, uma coisa é a educação e outra é a escola – parte deslocada). A partir daí discutiu-se o papel da escola no processo educativo geral (qual educação?) e na sociedade na qual vivemos. Os limites e as possibilidades da escola e da Geografia na escola. A necessidade de se apropriar da escola, transformá-la, compreendendo-a de forma crítica e intervindo nesta espacialidade. Discutiu-se também os limites e as possibilidades do trabalho docente na escola, as restrições e determinações que têm sido impostas pelo Estado em relação aos conteúdos, tirando do professor a autonomia para definir os temas e conteúdos com os quais pretende trabalhar. A proletarização do professor, levado a um processo de trabalho precário onde a finalidade de sua atividade já está posta.

Com relação à Copa do Mundo de Futebol 2014, ponderou-se que podemos até discutir a inserção deste evento na escola, mas isso pode ser apenas tático, mesmo restrito, uma vez que se trata de processos urbanos que atingem e modificam o contexto da cidade como um todo. A questão mesmo, decisiva pra uma estratégia, é partir de como a relação Estado-capital-trabalho educa a população para um aceitamento passivo do consumo dessas mercadorias, isto é, de ser consumida como mercadoria que permite a exploração de uns pelos outros e a acumulação de uns enquanto outros ainda acham que tão levando vantagem.

Uma ferramenta analítica (BRANDÃO) importante que nos apropriamos a partir das discussões do GT Educação é entender a educação como três coisas articuladas, resumidamente:

1. Uma ideia. Produz um pensamento sobre o que é o mundo: se é suficiente continuá-lo como está ou se é necessário mudá-lo. Então, idealizamos o processo que satisfaça essa necessidade. Pensamos uma forma de pedagogia, uma didática, uma maneira de que as pessoas se socializem numa ou noutra perspectiva, uma maneira de que a sociedade se reproduza nessa contradição de conteúdo conservador ou revolucionário - entre esses extremos, preto e branco fica cinza mais claro, mais escuro; dialética.

2. Uma prática. É a ideia se materializar. Satisfazer tal necessidade pode se dar mediante um convencimento por meio de repressão, espancamento, silenciamento, etc., e/ou por meio da cooptação, do suborno, do privilégio, etc., e ou por meio de uma participação consciente e autodeterminada, de uma práxis etc. Existem divisões do trabalho e do poder nessas práticas que colocam em questão a ideia e a própria prática. A condição de forma e de conteúdo é tensionada inicialmente aqui. É a contradição localizada: tem um vai e volta com a ideia, que produz outra ideia, que por sua vez produz outra prática, que por sua vez...

3. Uma instituição. É a especificidade do onde: tempo-espaço-sujeito a ideia e prática se historicizam, produz um objeto. É a situação em que as ideias e as práticas não são autônomas, isto é, existem condições, determinantes, imperativos, enfim, produz-se um movimento limitado no tempo e no espaço da sociedade. Tem contingência e necessidade. É condição e consequência. Dentro da instituição, existe a briga, tácita ou aberta, entre quem tem ideias e práticas instituídas (re-formam) e instituintes (trans-formam). A relação ideia-prática se torna contraditória não somente internamente, mas externamente, objetivamente, socialmente - é a contradição distribuída.

Precisamos de escala pra pensar a educação e a Copa: o bairro pode ser a categoria analítica, mas também pode ser a mídia (aquela gostosa da cerveja...), o ônibus, o indivíduo, o partido, o estado de minas gerais, a família, o mineirão, a classe social, o bandejão, o município de belo horizonte, a cama, a humanidade, o assentamento da reforma agrária, a igreja, o automóvel, a regional da prefeitura, a lan house, a boca de fumo, a biblioteca, o país, o sindicato, a América Latina, o posto de saúde, o shopping center, a ocupação, a hinterlândia, a praça, a rua, a delegacia, a fábrica, a universidade, a brasilinha do Aécio, entre muitas outras. A ESCOLA é somente uma dessas formas em que a institucionalidade se realiza, bem como em cada exemplo dado. Nem MAIS nem MENOS.

Assim, apareceu a proposta de pensarmos a educação a partir do tripé Estado, Capital e Trabalho, inclusive chegando a discutir neste contexto os grandes eventos esportivos no contexto da Educação. Como este processo tem chegado à escola? Como ele tem sido discutido? Pensou-se sobre a necessidade de debater mais sobre isso nas próximas reuniões do GT.

Ao final, foi proposto e aceito que na próxima reunião haverá uma breve exposição sobre os textos escolhidos, para poder explorar melhor o texto durante a discussão. Os textos escolhidos para a próxima reunião do GT foram “Sociedade Sem Escolas”, de Ivan Illich, “Educação para além do Capital”, do Meszaros e “Cuidado, Escola”, do Instituto Paulo Freire. Criou-se uma lista de discussão entre os participantes do GT de Educação (gteducacaoagbbh@yahoogrupos.com.br) pela qual serão postados os arquivos que estiverem disponibilizados na internet. Enfim, com o intuito de nortear a discussão, propôs-se que cada participante escreva um pequeno texto, a ser enviado no e-mail do grupo uns três dias antes da próxima reunião, elaborando suas impressões e preocupações quanto à problemática da educação, podendo para isso, se for o caso, basear-se nos textos-base ou outros. A próxima reunião foi marcada para o dia 07 de maio, às 14 horas, novamente no Centro Cultural da UFMG.


 

Relato da reunião, ocorrida em 07 (sete) de Maio de 2011, do Grupo de Trabalho sobre Educação da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local Belo Horizonte (AGB-BH).


 

Nesta terceira reunião do GT de Educação da AGB-BH estiveram presentes 08 participantes, entre professores de educação básica e de cursos pré-vestibulares, estudantes de graduação e outros interessados no debate. No encontro anterior, decidiu-se pela leitura de três obras que pudessem dar subsídios à continuidade da discussão: Educação para além do capital de István Mészáros, Sociedade sem escolas de Ivan Illich e Cuidado, Escola! de uma equipe do Instituto de Ação Cultural (IDAC).

A discussão teve início a partir de uma apresentação, feita por comentários, do livro de Mészáros. Apresentou-se, então, que em Educação para além do capital o autor faz uma forte crítica ao reformismo, uma vez que, ficando no âmbito de tentar corrigir este ou aquele aspecto, as reformas da educação permanecem presas às determinações fundamentais da lógica irreformável do capital. Como exemplo, levantou-se experiências nacionais como as chamadas Ações Afirmativas, o Pro-Uni, o Reuni que, sob véu democrático, não conseguem atingir ao que se propõe. Ademais, entendeu-se que tais reformas servem para abafar a revolta dos trabalhadores.

Além disso, chegou-se a questionar que se os processos sociais mais amplos estão intimamente ligados aos processos educacionais, não seria o caso de se buscar transformações nestes últimos para que haja transformações nos primeiros, o que é o contrário do que aposta Mészáros, para o qual não se consegue nenhuma transformação na educação sem uma transformação no quadro social como um todo. Nesse mesmo sentido, destacou-se a posição do autor quanto a educação como internalização de modelos sociais, de modo a manter a ordem social. Por isso, uma educação para além do capital, deve tratar de criar estratégias de contra-internalização.

A partir desta discussão sobre a educação enquanto internalização de modelos sociais, levantou-se uma discussão sobre a diferença entre educação no sentido amplo e ideologia. Por exemplo: a televisão educa ou passa uma ideologia? Vários participantes colocaram sua opinião, argumentando e definindo o que entende por ideologia, mas não se chegou a um consenso, cada qual permanecendo com sua própria opinião. Outro tema cuja discussão seguiu o mesmo caminho foi sobre alienação. No fim, não se chegou a um entendimento coletivo quanto ao conceito.

Em relação ao texto do Illich, as contribuições foram sendo colocadas mais no seio das discussões acima. Considerou-se, por exemplo, que o banimento da escola não significa necessariamente que não haja internalização de modelos sociais. Especificamente, considerou-se que apesar do Illich tecer críticas contundentes à instituição escola, a proposta de sua extinção não seria nada proveitoso sob uma perspectiva de transformação social, pelo contrário, poderia ser bem aceita pelo empresariado, uma vez que ele formaria “sua” mão de obra a seu gosto e ainda receberia para isso (conforme a proposta do autor de que as pessoas receberiam créditos do governo para gastá-los com quem se dispusesse a ensiná-las). Por outro lado, a proposta de desescolarização da sociedade, entendida como o processo em que os sujeitos não se submetem passivamente às instituições, poderia inclusive ser aplicada por dentro da escola, por exemplo, quando o professor se nega a aplicar determinações que visam estritamente controlar o comportamento dos estudantes.

Por sua vez, o livro Cuidado, Escola! não mereceu considerações.

Já no final do encontro, levantou-se uma discussão quanto aos rumos que o grupo de trabalho iria tomar. Sugeriu-se, então, que o GT investisse numa investigação sobre o caráter da educação escolar (para quê e para quem serve) para compreender sua relação com a estrutura que a escola assume (estrutura no sentido mais amplo: os horários de funcionamento, a divisão por disciplinas, a seriação, os salários, a divisão do trabalho, dentre outros). Tal proposta visava compreender como esta estrutura determina a condição do trabalho docente, que sabidamente é horrível, e os processos educacionais. A partir desta compreensão teórico-empírica pensar então alternativas e dialogar com outros setores da sociedade. Contudo, a proposta não foi aceita, inclusive criticando-se seu caráter setorial e ponderando-se quanto à dificuldade em se organizar a classe trabalhadora (mesmo setorialmente), uma vez que, como considera Alain Bihr, o proletariado passou, em seu desenvolvimento histórico, de produtor coletivo para a condição ideológica de consumidor individual. Assim, a opinião geral foi a de que o grupo deve continuar aprofundando na compreensão teórica mais ampla sobre a educação. Por outro lado, houve também uma preocupação quanto aos objetivos do grupo, a qual diz respeito ocorrer à maioria das iniciativas deste tipo ficarem apenas na discussão sem conseguir avançar para ação propositiva.

Enfim, marcou-se o próximo encontro para 04 de junho de 2011, um sábado, às 14:00h, mas sem lugar definido (possivelmente, novamente no Palácio das Artes, dada a escassez de locais públicos adequados para este tipo de reunião). Resolveu-se aprofundar, neste próximo encontro, um pouco mais sobre os conceitos de ideologia e alienação. Sendo assim, os textos propostos foram “Trabalho Estranhado e Propriedade Privada”, capítulo do livro Manuscritos Econômicos-Filosóficos de 1844 de Karl Marx, “Estrutura conceitual da teoria da alienação em Marx”, capítulo do livro A Teoria da Alienação em Marx de István Mészáros e “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado” de Louis Althusser.